Sou tudo aquilo que escrevo.Não há melhor forma de me conhecer.Nas palavras encontrei todos os sentidos.Nos gestos descobri todas as emoções. No amor descobri a vida em mim.Tudo em mim é mar, calmo ou violento, quando olharem esse azul imenso de água pleno, relembrem as palavras que escrevi, esse é o segredo de estar aqui.
Domingo, 28 de Janeiro de 2007

'Tão triste e só como um anjo sem oratório'

'...certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onde para a praia na tua direcção vai o meu corpo, exclamou o Neruda, e era assim connosco, e é assim comigo, só que não sou capaz de to dizer.'António Lobo Antunes, 'Memória de Elefante'Vou-me enfiar como um vitelo no ventre agora frio da cama, embrulhar-me na angustia branca dos lençois e sentir a falta do teu corpo colado ao meu, das tuas pernas a tocarem as minhas nesses movimentos envolventes de amiba, dessa mansidão calma do teu sono leve de gaivota, vou sentir a falta do teu hálito no meu pescoço e se calhar vou começar a chorar baixinho, agarrado à almofada como um bébé a quem tiraram o brinquedo mais bonito, e vem ai, de certezinha, mais uma noite em que não vou ser capaz de adormecer sem enfiar no bucho dois 'Lexotan', para então dormir o sono de porcelana dos anjos de oratório, e amanhã acordo com o grunhir asmático do despertador que tu compraste, e vou demorar como sempre um tempo infinito aos apalpões para o encontrar e desligar, vou ter de me rebolar e arrastar pela cama na direcção da mesinha-de-cabeceira do teu lado, porque ainda não me habituei a muda-lo de sitio, vou ficar um montão de tempo a pensar por que porra é que eu estou sózinho nesta cama só desfeita de um lado e mais enorme do que nunca!, e vou olhar em volta e já não encontro mais a tua roupa dobrada nas costas do cadeirão de couro (que tinha pertencido não sei a que marquês e que nós compramos numa loja de antiguidades caras), vou achar a falta do teu acordar bruto e dos passos desgovernados que davas sempre pelo quarto à procura do roupão azul que te ficava a matar (e eu, que me lembre, nunca te disse que te ficava bem, caramba!), depois levanto-me e vou enfiar-me na casa de banho, olho-me no espelho e vejo como tenho os olhos parados e baços de tristeza como um touro amuado de encontro às tabuas, e pego na gilete e vou escanhoar-me muito bem, porque nunca tive coragem de mandar o modo de 'bem parecer' às urtigas (nunca fui capaz de aparecer no emprego com a barba por fazer e despenteado, porra, e ouvir com um sorriso as bocas aos subalternos!), vou procurar no armário a minha escova dos dentes e encontra-la sozinha a um canto onde me faz falta e tua, e um silêncio enorme , sem ti esvazia toda a casa e eu penso onde estarás a acordar a esta hora, se ainda estás em casa dos teus pais ou já te enroscaste com algum dos teus amiguinhos, desses que têm um ar natural de bem nascidos, desses que nem precisam de fazer muito esforço para terem um olhar brilhante e uma face polida, desses que tu trazias cá a casa, quando faziamos aquelas festas de que eu nunca percebi a razão, e com quem eu nunca fui muito à bola, também não sei porquê!, são pressentimentos, porque há duas coisas que um homem atento percebe sempre: o amor e o encornamento!, e a mim ninguém me tira agora dos cornos que algum gajo com mais cifrões do que eu te deu a volta, te endrominou com conversas ocas de dólares ou de ecus, e agora ando eu para aqui às voltas neste deserto branco da cama, à rasca para adormecer e com uma vontade do raio de te abraçar, com uma saudade enorme do cheiro da tua pele, do mar quente e azul dos teus olhos, e se tu não voltas um dia destes dou comigo num consultório a ler revistas parvas e à espera para ser atendidopelo médico das úlceras nervosas, preciso de te dizer quanto ainda gosto de ti, porra! que tudo o que passamos juntos não pode acabar assim tão parvamente com um «adeus» e um «eu depois volta para buscar o resto das coisas», e eu dou comigo a pensar: deixa-me pelo menos o teu perfume e a tua escova dos dentes no armário, se não um dia destes estoiro de solidão e não deve haver pior estoiro que esse!, de certeza, quando a angústia começa a levedar em bola no saco do estomago e se estende como uma lesma pelo esófago acima num ardor frio de ácido, é uma angustia pior do que a que eu senti quando me apresentaste os teus pais e fizeste uma pausa quase envergonhada antes de anunciares os meus apelidos:-Este é o Zé... Riço Direitinho!e eu, mais pequenino do que nunca diante das tuas terrinas da Companhia das Indias e dos quadros verdadeiros do Chagall, olhava, com os olhos suplicantes de um cãozinho abandonado, a tua mãe, que, mal reparou em mim e me cumprimentou, desapareceu engolida por uma das infinitas portas do corredor, se calhar foi rezar a todos santinhos da devoção que lhe levassem para bem longe este nome incógnito que a filha lhe tinha agora enfiado no meio dos talheres de prata, das porcelanas de Sèvres, e dos tapetes persas, e no dia do casamento deu-me então um beijo na bochecha e mostrou-me um sorriso, agora deve ter-te dado os parabéns e perguntado porque raio é que esta tão feliz ideia de me deixares assim à brocha não te tinha passado pela cabeça há mais tempo, e eu quero dizer-te o que se calhar nunca te disse durante os não sei quantos anos que estivemos juntos, durante os não sei quantos anos que estivemos no mesmo ventre de sono desta cama cheia de berloques, durante os não sei quantos anos que pastámos mutuamente a pele um do outro como duas ovelhas com cio, durante os não sei quantos séculos de filmes, de óperas, de teatros e de exposições, sempre a dois e de mãos dadas como um par de putos do porta adentro e eu estava sentado no sofá de veludo verde da sala, a ler como sempre um dos mesmos livros do Lobo Antunes ou do Almeida Faria, e tu atiraste com o saco das compras para o chão e berraste fora de ti e com as pálpebras a meia haste, que estavas fartinha de mim, dos meus sonhos de vir a ser um escritor famoso, do tempo que eu passava a escrever pela noite dentro sem olhar para ti (e isto era uma enorme mentira, porra!), sem te dar a menor atenção quando tu chegavas cansada e nos dias em que mais precisavas de mim, que estavas fartinha do meu sangue-frio de lagarto, da minha cara de pão sem sal, da minha moleza de engenheiro agrónomo eternamente empregado numa repartição de Direcção Regional do Ministério, e eu dizia-te sempre que um dia ainda escreveria um livro que ficaria toda a gente de boca aberta, todos os que como tu nunca quiseram acreditar em mim, no meu talento para escrever estórias, e tu não tiveste mais paciência para me ouvir e começaste a arrumar as coisas, mas só depois eu percebi que tinhas feito um teatro do caraças, que já devias andar a ruminar esta peça de fotonovela de 'Corin Tellado' há um ror de dias, percebi isso quando me assomei à janela e topei com um Maserati vermelho a esperar-te ao fundo da nossa rua, só nessa altura percebi como tinha feito papel de cabrão manso, mas agora se calhar já é tarde para me redimir, e vou meter mais umas pastilhas no bucho para ver se adormeço e me esqueço da saudade que me fazes, do teu perfume, que ainda não deixou este quarto, do cheiro do teu suor, que continua entranhado nas roupas da cama; mas sei que vou andar sem bússola na alma não sei quanto tempo mais, que isto só me vai passar aos poucos com xaropes e pílulas para o sono, e ainda umas quantas sessões de terapia ocupacional de grupo de psicanálise e mais uns quantos tratamentos iguais aos dos maluquinhos, e vais ver como eu te consigo esquecer para sempre!, e finalmente dormir um sono de cordeiro que não foi enjeitado."
José Riço Direitinho
Sempre tive uma amizade especial pelo autor deste texto, e considero esta uma forma de o dar a conhecer e de recordar os velhos tempos em que publicavamos as nossas palavras nas páginas já desaparecidas do 'DN Jovem'.
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Abrigo por Anamel às 12:59

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