Sou tudo aquilo que escrevo.Não há melhor forma de me conhecer.Nas palavras encontrei todos os sentidos.Nos gestos descobri todas as emoções. No amor descobri a vida em mim.Tudo em mim é mar, calmo ou violento, quando olharem esse azul imenso de água pleno, relembrem as palavras que escrevi, esse é o segredo de estar aqui.
Domingo, 28 de Janeiro de 2007

Regressar em Ti

Regressar ao abrigo do teu corpo
Caminhar a ternura na tua pele
Ser mar ardente por dentro do teu olhar
Ver-te assim espelho d`água

Desenhar-te a sombra nas marés
Saber-te o sabor na maresia
Sentir-te areia entre os dedos

Indagar dos segredos
Gestos de amiba
Invisível presença
Estares aqui

Por detrás das serras
Caminhos de regresso

Todos os afectos
Todos as vozes
Todos os silêncios
Todos os gritos
Todas as conjunções
De todas as palavras que não sei dizer

Amanhecer os encantos
Descobrir-te os recantos
Aninhar-te envolto nos meus abraços

Feitiço da Lua
Alma nua
Coração de Abrigo
Meu Amor regressou em Ti.

16/01/07
Pensamentos: ,
Abrigo por Anamel às 14:25

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'Obra Poética' - David Mourão -Ferreira

PARAÍSO

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir.
De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
Pensamentos:
Abrigo por Anamel às 14:21

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Fernando Pessoa

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda Pessoa da Trindade
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Nem era mulher: era uma mala em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido,
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz.
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus
Diz que ele é um velho estúpido e doente
Sempre a escarrar no chão
E a dizer maledicências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -“Se é que ele as criou, do que duvido” -
“Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa

.......................................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, e que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o meu dedo apontando
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo intimo como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer os olhos aos muros caiados.
Depois ele adormece-o e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono

................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde
Para eu tornar a adormecer
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é

...................................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro
Pensamentos: ,
Abrigo por Anamel às 14:08

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Este tempo, este lugar


Estou contigo
Quando escolhes os caminhos mais dificeis
Estou contigo
Quando acordas do pior pesadelo
Estou contigo
Quando te sentes perdido
Estou contigo
Quando o teu coração sofre
Estou contigo
Quando a tua pele pede calor
Estou contigo
Quando o teu corpo apenas anseia por um abraço
Estou contigo
Quando a tua alma recorda a saudade
Estou contigo
Quando todo o teu ser regressa a casa

Estou contigo neste tempo, neste lugar
Para Ti, por Ti
Respirarei o teu Ser.

21/12/06
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Abrigo por Anamel às 14:05

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Amar até acordar..

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar. De rosto cansado, apenas sonhava descansar na entrega dos abraços, na paz dos regressos. E foi o que fez. Regressou.
Abriu a porta, escancarou a janela da sala de uma qualquer casa cuja pertença já nem se lembrava. Olhou ao redor e não soube explicar a si próprio qual o sentido das emoções, das paixões de alma que lhe recordavam as saudades.

Viu então que à sua frente se estendiam muitos horizontes, sentiu os caminhos que os seus pés descalços haviam pisado, espelhou nos olhos todas as maravilhas do mundo que já havia visitado, afagou nos gestos todos os amores que se tinham apartado.

Deu uns breves passos, atravessou a casa e daquela janela sobre o promontório chamou a si aquele céu infinito. Deitou a sua alma nas nuvens e descansou. Perdeu-se nas horas todos os sentidos, à deriva do olhar. Sim, simplesmente dos breves instantes do olhar, no silêncio das palavras, parou.

Estás ai? Inquiriu num monólogo. Apenas o seu coração respondeu: sim estou dentro de ti, apazigua a tua ansiedade, o teu coração ainda ama. Voltou costas ao mundo, reteve na lembrança todo o céu, todos os olhares, todos os gestos e fez Amor até acordar…

18/12/06
Pensamentos:
Abrigo por Anamel às 14:02

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'Ilha'

Deitada és uma ilha.
E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planicie adolescente

deitada és uma colina que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me enebrias
Amiga amor amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira
Pensamentos:
Abrigo por Anamel às 13:59

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Quero-te para mim

Quero o mar nos teus olhos
Quero a areia na tua pele
Quero a maresia no teu odor
Quero as ondas nos teus gestos

Desespero a lonjura no teu regresso
Anseio o teu ser mar adentro da minha alma
Aguardo o momento nos instantes
Antevejo o amar além, para sempre guardado

E porque te quero para mim
Para ti tenho o tesouro amar o melhor de mim.

14/12/06
Pensamentos: ,
Abrigo por Anamel às 13:57

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'O teu amor'

O teu amor absoluto
é como a hera que envolve as paredes da casa
quero ser a casa
e que arranhes a cal da minha pele
e te aninhes nos meus ouvidos fendas
e perturbes a porta minha boca

E por fim
procures o perigo das janelas
e enfrentes os meus olhos
infinitos de mágoa
noite e assombração

Rosa Lobato Faria
Pensamentos:
Abrigo por Anamel às 13:53

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Para que não te sintas só..

Não conseguia adormecer. Depois de se revolver na cama durante duas horas, intermináveis, decidiu sair. Vagueou pelas ruas daquela cidade sem nome, num sítio frio e impessoal. Enquanto vagueava, relembrou o dia anterior, a namorada tinha terminado tudo, o pai tinha discutido e o curso não andava. Parou junto à praia. Começou a caminhar cabisbaixo pelo areal, até sentir os pés molhados. Sentou-se na areia molhada e olhou o horizonte que estava mesclado. O sol estava prestes a surgir.
Horas depois o sol, já sobre o horizonte, brilhava com vontade, majestoso, desafiava-o, foi então que sentiu alguém que lhe fazia companhia há já algum tempo. Era uma força que lhe vinha de dentro e o fez ver que o mundo é perfeito em toda a sua mudança e que a vida é uma circunferência com um lado positivo e leve, e um lado negativo e pesado. Essa circunferência era a sua vida e neste momento o lado negativo e pesado estava virado para cima. Compreendeu então que só ele a poderia virar, roda-la quantos graus quisesse e embora só ele o pudesse fazer, podia faze-lo, mantê-la em constante rotação para que o lado positivo estivesse sempre no cimo.
Regressou a casa com vontade de viver.
Évora, Novembro 1990
Esta foi uma história que imaginei. Quando o fiz, idealizei que era eu a conta-la a alguém muito especial, e por incrível que pareça esse alguém estava a adormecer, por isso esta história é para embalar e no dia seguinte quando amanhece é para renascer.
Ofereço-te esta história para que nunca te sintas só porque no fundo todos queremos que todos ouçam a nossa dor.
Pensamentos:
Abrigo por Anamel às 13:52

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Metade de Nós

Ao fim do dia
Voltaste a casa
Retornaste ao lar
Regressaste à cama
Que sempre esperou por ti
Só agora senti
O imenso vazio
Que sempre existiu
Naquela metade de lençol

Agora sei que estar contigo
É não saber quando voltas
Amar-te é saber agora
e em todos os momentos
Que a incerteza
aumenta a solidão

Recordo o futuro com saudade
Porque um dia sonhei
Que podia ser assim
E então qual quimera, serás tu
que um dia regressarás à minha cama
Se um dia quiseres voltar
Retornarás ao lar
Acariciarás o meu corpo
Escondido naquela metade de lençol

Eu saberei a cada momento
a cada instanteque a tua alegria
é estar ao meu lado
que o teu desejo
se escondeu sempre
naquela metade de lençol
que todo o meu ser
sempre esperou por ti

Só hoje senti
que já não tinha tempo
Só hoje soube que a tua vida
não tinha sentido
se não fosse a meu lado.

9/12/06
Pensamentos: ,
Abrigo por Anamel às 13:48

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