Sou tudo aquilo que escrevo.Não há melhor forma de me conhecer.Nas palavras encontrei todos os sentidos.Nos gestos descobri todas as emoções. No amor descobri a vida em mim.Tudo em mim é mar, calmo ou violento, quando olharem esse azul imenso de água pleno, relembrem as palavras que escrevi, esse é o segredo de estar aqui.
Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

'Alentejo Blue' de Monica Ali

Uma visão apaixonante da vida alentejana por uma das mais importantes autoras inglesas da actualidade.

Alentejo Blue conta-nos a história de uma pitoresca vila alentejana chamada Mamarrosa, através daqueles que lá vivem, viveram ou que por lá passaram.
Para uns, Mamarrosa é um lugar de onde se quer fugir, para outros, um local de refúgio. No café do Vasco confluem habitantes e forasteiros, com as suas histórias de vida recheadas dos mais banais – e ao mesmo tempo marcantes – aspectos humanos.
Um romance que mantém uma universalidade sustentada na profundidade narrativa das suas personagens. Uma história extraordinariamente humana que nos mostra o estilo bem característico da escrita de Monica Ali.

"O Alentejo do nosso descontentamento"

"Os almoços servem-se no Tem Avondo e, dos adubos aos detergentes, tudo se compra nos Armandos. Há uma casa abandonada que já foi pensão e um lugar chamado Cova das Bruxas. Poucos sabem onde fica São Luís, a aldeia que inspirou Mónica Ali para escrever Alentejo Blue.

Em São Luís, o Inverno é frio e custa a passar. Na época de praia, em Vila Nova de Milfontes, a uns 16 quilómetros, há bares, restaurantes, parques de campismo, tendas de bugigangas e lojas que vendem de tudo um pouco. Com o sol, em Setembro, vai-se o negócio e o emprego de ocasião, capaz de, em três ou quatro meses, equilibrar o orçamento familiar do resto do ano. O regresso à aldeia, do lado de lá da serra do Cercal, faz-se no fim da estação balnear. Entretanto, que perspectivas há aqui? Responde Ana, 20 anos: «Nenhumas.»
Ana está no café da Sociedade Recreativa Musical São Luisense. À conversa com Fernanda, 40 anos, de avental, atrás do balcão. Jornais velhos em cima das mesas, televisão ligada para o boneco, pouca clientela. Ana, ensino secundário completo e experiência de trabalho pouco qualificado no sector da hotelaria, cuida do filho de 3 meses. Quando chegar o verão, pode ser que tente alguma coisa no Algarve, onde sempre «há mais possibilidades».
Entendamo-nos: Mamarrosa – a aldeia imaginaria ficcionada por Mónica Ali em Alentejo Blue, cuja tradução portuguesa chegará às livrarias na próxima semana, com a chancela de uma nova editora, a Caderno – não existe. Nem as pessoas, nem os enredos, nem os lugares da ficção têm correspondência directa com a realidade. Convém dizer que, também neste caso, as semelhanças que se vierem a encontrar são pura coincidência. A Mónica Ali, considerada pela revista Granta como uma das 20 melhores jovens escritoras da Grã-Bretanha, São Luís serviu-lhe apenas de inspiração para retratar, como ela escreve, «a região mais pobre do país mas pobre da União Europeia». Ali garante-o à VISÃO. Como se fosse preferível tirar fotografias à distância. Sem zooms nem objectivas.
No livro, poucas são as descrições facilmente identificáveis com um lugar em concreto. Fala-se de Odemira e São Teotónio, da Casa do Povo, da estação dos correios e pouco mais. Não se vêem os nomes das ruas, os atributos físicos das personagens, os trilhos da paisagem. Vêem-se as rugas, os apetites, os ambientes. «Quando se vê uma velha mulher, está na soleira da porta, de vassoura em punho. Vi ontem um e varreu o lixo para a calçada, beijou o santo de gesso na alcova e fechou a porta sem olhar para fora.» Narrativa fragmentada, Alentejo Blue conta a história de uma alentejana que quer emigrar para Londres, de um proprietário de um café com Internet, de uma família de imigrantes ingleses, de um escritor falhado, às voltas com um romance sobre Blake. Há, ainda, Marco Afonso Rodrigues que, um dia, há-de voltar para ali abrir um hotel. Todos são, como se diz no titulo original que o editor português optou por manter, blue. Tristes, perdidos, saudosos de alguma coisa que já passou.


POUCOS NOVOS, MUITOS VELHOS

A melhor maneira de entrar em São Luís é seguir o conselho de Saramago, que Mónica Ali escolheu para epígrafe de Alentejo Blue: «As aldeias são como as pessoas, aproximamo-nos delas lentamente, um passo de cada vez.» São cerca de 2200 habitantes, contas feitas há pouco pela freguesia. Diz a presidente da junta, Joaquina Bernardino, eleita, pela segunda vez, nas listas da CDU, que os maiores problemas da terra são o desemprego, o envelhecimento e a falta de água. Prova de que o Verão nem tudo traz de bom.
Vai para três anos que o Café Central fechou. No gaveto da casa onde funcionava, ainda se vê o letreiro pintado na parede. A farmácia, onde as pessoas se sentavam para contar as novidades, mudou de sitio. Está agora no adro da Igreja, com mármores a brilhar e portas envidraçadas. Uma mansão apalaçada era, em tempos, uma residencial. Na parede lateral, reconhece-se qualquer coisa como «pensão sancho’s place». Está à venda, indicam-se os números de telefone para contacto, mas parece que o negócio já foi encerrado. Depois das obras, manter-se-á como pensão. Vende-se, aluga-se ou arrenda-se, durante os meses de férias – são estes os verbos que mais se encontram nas ruas de São Luís.
Novos ou velhos, devem contar-se pelos dedos de uma só mão os que, na aldeia, vêem um futuro com prosperidade. Nas traseiras da Casa do Povo, fica o Centro de Dia da terra. Os responsáveis da instituição falam numa população envelhecida, numa grande fatia dos moradores acima dos 60 anos. Já foi comprada mais uma parcela de um terreno adjacente para que – assim os concursos públicos do poder central o permitam – a instituição possa também funcionar como lar. Agora, contando com o apoio domiciliário, são beneficiados cerca de 110 idosos.

MACIEIRA E EUROMILHÕES

Um pouco mais adiante, o almoço serve-se no Tem Avondo. Para os forasteiros, explique-se que «tem avondo» é a mesma coisa que dizer «basta», «barriga cheia», «já estou satisfeito». O dono, Miguel, 35 anos, serve sumóis de ananás, bagaceira em copo a preceito e, ao mesmo tempo, regista os boletins do euromilhões das senhoras que chegam em bando. Nas mesas do lado do café (do outro lado é a zona de almoços), há quem fique. Ou melhor, há quem vá ficando, que estar ali é uma forma de passar o tempo como qualquer outra. Mónica Ali escreve sobre isso: «Os velhos ficavam no bar a acariciar os seus copos de Macieira e a cuspirem lembranças. Com os seus chapéus pretos de feltro e os seus coletes pretos, de lenço vermelho atado ao pescoço, pareciam a Stanton uns postais do passado, tão pitorescos como as ruas amolgadas, as casas caiadas, as portas e janelas alegremente rodeadas de azul e amarelo.»
À porta dos Armandos estão encostadas umas quantas bicicletas (em versões com mais ou menos ferrugem, o meio de transporte privilegiado em São Luís). A canção da Family Frost revela que a carrinha dos congelados anda por perto. Os Armandos são a venda. A loja, que mais parece um armazém, onde tudo se vende. Adubos, detergentes para a casa, artigos de higiene, fruta, bolachas, panelas, pás, vassouras, picaretas… É também ali que se podem comprar os bilhetes para a camioneta. Carlos, 43 anos, tomou conta do negócio, com o pai. Andou pelo mundo, tirou um curso de fotografia e, depois disso, decidiu voltar a São Luís. Motard, continua a fazer grandes viagens pela Europa fora. Conhece Mónica Ali, que costuma lá ir para comprar o que é necessário. «Ela não se anuncia muito», conta Carlos. É «discreta», «recatada» e «extremamente simpática», vai fazendo perguntas sobre a vida daqui: «Acho que a ideia é perceber o Alentejo e conhecer este ambiente». «Conversas casuais» tidas em inglês, ainda que, como sublinha Carlos, Mónica Ali «está cada vez falando melhor» português.
É um entra e sai dos Armandos. E chega alguém que entende a conversa. O rosto, inglês-tipo, não engana. Leu Alentejo Blue e não gostou. Não é propriamente amigo de Mónica Ali, antes «conhecido». Diz que não quer ser identificado, uma vez que, se lhe publicarmos o nome e a fotografia deixará de o ser. «Penso que se trata de um livro terrível, porque fala das pessoas que aqui vivem», comenta. «Very close to the boné», o que em português significa que a ficção está demasiado próxima do real. E acrescenta: «São pessoas reais. Quem não vive cá não sabe. Mas para quem, como eu, vive cá, é óbvio. Da parte dela não é muito inteligente fazer isto.»
A casa de Mónica Ali, uma casa pequena, com um grande sobreiral à frente, fica fora da aldeia. Costuma lá passar as férias grandes e sempre que o calendário escolar dos filhos o permite. Não é a única: há muitos estrangeiros na região, a maior parte deles espalhados pelos montes de Odemira, concelho onde a paisagem Alentejana não é feita de planícies a perder de vista.
A presidente Joaquina Bernardino comenta que se dão bem com os estrangeiros, mesmo que estes, por vezes, tenham dificuldade em respeitar os usos e os costumes alentejanos. A questão coloca-se sobretudo, explica Joaquina Bernardino, nos caminhos públicos que eles teimam em vedar e assim tornar «seus».

NÓS E OS OUTROS

Mesmo no centro da aldeia, o corpo médico da clínica Pontual (ironia por causa dos conhecidos atrasos portugueses?) integra profissionais estrangeiros – a massagista terapêutica Anne Raquin, o cirurgião Ronald Spaans e o enfermeiro Mateus Winnubst. A carrinha da freguesia leva a casa os filhos de ingleses e alemães que aqui decidiram viver a tempo inteiro. E, na escola, também se dão aulas de português para estrangeiros. Para os lados da Cova das Bruxas, há um alemão que faz trabalhos em pedra e uns holandeses que organizam passeios a cavalo. De há uns anos para cá, por iniciativa «deles», dos estrangeiros, conta a presidente da junta, realiza-se uma feira onde se vende o que sobra lá em casa, adaptação luisense da venda de garagem anglo-saxónica.
Também há quem diga que a época destes emigrantes por vontade própria já acabou. Elsa Candeias, funcionária da junta há 17 anos, afirma que, dantes compravam-se «coisas reles» por muito dinheiro. «Agora, já não têm os olhos tapados», afirma. Agora quem vem de fora «vem mais por necessidade». Ucranianos e brasileiros chegam às redondezas e quase sempre para executar trabalhos que mais ninguém quer fazer. O ar dos tempos também chegou a São Luís."

SARA BELO LUÍS

Reportagem in Visão, nº724 de 18 a 24 de Janeiro, 2007
Abrigo por Anamel às 01:17

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