Sou tudo aquilo que escrevo.Não há melhor forma de me conhecer.Nas palavras encontrei todos os sentidos.Nos gestos descobri todas as emoções. No amor descobri a vida em mim.Tudo em mim é mar, calmo ou violento, quando olharem esse azul imenso de água pleno, relembrem as palavras que escrevi, esse é o segredo de estar aqui.
Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint - Exupèry

"Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa!"

A história que nos torna eternas crianças..

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Abrigo por Anamel às 22:37

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Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

De que é que depende a felicidade?

Ser feliz. De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. De que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos. Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua. Que dores menores me pontuaram a vida toda? Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós. Ser feliz. Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.

Não sei o que falharia ainda, se o mais não tivesse falhado. Que falsificação de nós inventamos para os outros que no-la inventaram? Ter grandeza no que se sofre para ao menos nos admirarem o sofrimento. O que sofri entremeado ao público sofrimento não tem grandeza nenhuma. Precisava bem de saber se a minha verdade definitiva não está aí. Ou ao menos a condição de tudo o mais. Para me negar radicalmente na obscuridade de mim. Para saber definitivamente o que vou entregar à morte. Porque pode ser só aquilo de que a morte tomará posse, sem restar nada de que tomem posse os outros.


Vergílio Ferreira
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Abrigo por Anamel às 22:09

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Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

'Queridas mulheres' de Sergio Cunha

Num daqueles encontros casuais na web, num dos blogs que frequento esporadicamente, alguem deixou uma mensagem na minha caixa de correio e anunciou-me que tinha escrito um livro. Fui pesquisar a editora e li alguns excertos do livro. Penso que seja deveras interessante. Por isso resolvi fazer um pouco de publicidade:


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Abrigo por Anamel às 16:26

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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

'Alentejo Blue' de Monica Ali

Uma visão apaixonante da vida alentejana por uma das mais importantes autoras inglesas da actualidade.

Alentejo Blue conta-nos a história de uma pitoresca vila alentejana chamada Mamarrosa, através daqueles que lá vivem, viveram ou que por lá passaram.
Para uns, Mamarrosa é um lugar de onde se quer fugir, para outros, um local de refúgio. No café do Vasco confluem habitantes e forasteiros, com as suas histórias de vida recheadas dos mais banais – e ao mesmo tempo marcantes – aspectos humanos.
Um romance que mantém uma universalidade sustentada na profundidade narrativa das suas personagens. Uma história extraordinariamente humana que nos mostra o estilo bem característico da escrita de Monica Ali.

"O Alentejo do nosso descontentamento"

"Os almoços servem-se no Tem Avondo e, dos adubos aos detergentes, tudo se compra nos Armandos. Há uma casa abandonada que já foi pensão e um lugar chamado Cova das Bruxas. Poucos sabem onde fica São Luís, a aldeia que inspirou Mónica Ali para escrever Alentejo Blue.

Em São Luís, o Inverno é frio e custa a passar. Na época de praia, em Vila Nova de Milfontes, a uns 16 quilómetros, há bares, restaurantes, parques de campismo, tendas de bugigangas e lojas que vendem de tudo um pouco. Com o sol, em Setembro, vai-se o negócio e o emprego de ocasião, capaz de, em três ou quatro meses, equilibrar o orçamento familiar do resto do ano. O regresso à aldeia, do lado de lá da serra do Cercal, faz-se no fim da estação balnear. Entretanto, que perspectivas há aqui? Responde Ana, 20 anos: «Nenhumas.»
Ana está no café da Sociedade Recreativa Musical São Luisense. À conversa com Fernanda, 40 anos, de avental, atrás do balcão. Jornais velhos em cima das mesas, televisão ligada para o boneco, pouca clientela. Ana, ensino secundário completo e experiência de trabalho pouco qualificado no sector da hotelaria, cuida do filho de 3 meses. Quando chegar o verão, pode ser que tente alguma coisa no Algarve, onde sempre «há mais possibilidades».
Entendamo-nos: Mamarrosa – a aldeia imaginaria ficcionada por Mónica Ali em Alentejo Blue, cuja tradução portuguesa chegará às livrarias na próxima semana, com a chancela de uma nova editora, a Caderno – não existe. Nem as pessoas, nem os enredos, nem os lugares da ficção têm correspondência directa com a realidade. Convém dizer que, também neste caso, as semelhanças que se vierem a encontrar são pura coincidência. A Mónica Ali, considerada pela revista Granta como uma das 20 melhores jovens escritoras da Grã-Bretanha, São Luís serviu-lhe apenas de inspiração para retratar, como ela escreve, «a região mais pobre do país mas pobre da União Europeia». Ali garante-o à VISÃO. Como se fosse preferível tirar fotografias à distância. Sem zooms nem objectivas.
No livro, poucas são as descrições facilmente identificáveis com um lugar em concreto. Fala-se de Odemira e São Teotónio, da Casa do Povo, da estação dos correios e pouco mais. Não se vêem os nomes das ruas, os atributos físicos das personagens, os trilhos da paisagem. Vêem-se as rugas, os apetites, os ambientes. «Quando se vê uma velha mulher, está na soleira da porta, de vassoura em punho. Vi ontem um e varreu o lixo para a calçada, beijou o santo de gesso na alcova e fechou a porta sem olhar para fora.» Narrativa fragmentada, Alentejo Blue conta a história de uma alentejana que quer emigrar para Londres, de um proprietário de um café com Internet, de uma família de imigrantes ingleses, de um escritor falhado, às voltas com um romance sobre Blake. Há, ainda, Marco Afonso Rodrigues que, um dia, há-de voltar para ali abrir um hotel. Todos são, como se diz no titulo original que o editor português optou por manter, blue. Tristes, perdidos, saudosos de alguma coisa que já passou.


POUCOS NOVOS, MUITOS VELHOS

A melhor maneira de entrar em São Luís é seguir o conselho de Saramago, que Mónica Ali escolheu para epígrafe de Alentejo Blue: «As aldeias são como as pessoas, aproximamo-nos delas lentamente, um passo de cada vez.» São cerca de 2200 habitantes, contas feitas há pouco pela freguesia. Diz a presidente da junta, Joaquina Bernardino, eleita, pela segunda vez, nas listas da CDU, que os maiores problemas da terra são o desemprego, o envelhecimento e a falta de água. Prova de que o Verão nem tudo traz de bom.
Vai para três anos que o Café Central fechou. No gaveto da casa onde funcionava, ainda se vê o letreiro pintado na parede. A farmácia, onde as pessoas se sentavam para contar as novidades, mudou de sitio. Está agora no adro da Igreja, com mármores a brilhar e portas envidraçadas. Uma mansão apalaçada era, em tempos, uma residencial. Na parede lateral, reconhece-se qualquer coisa como «pensão sancho’s place». Está à venda, indicam-se os números de telefone para contacto, mas parece que o negócio já foi encerrado. Depois das obras, manter-se-á como pensão. Vende-se, aluga-se ou arrenda-se, durante os meses de férias – são estes os verbos que mais se encontram nas ruas de São Luís.
Novos ou velhos, devem contar-se pelos dedos de uma só mão os que, na aldeia, vêem um futuro com prosperidade. Nas traseiras da Casa do Povo, fica o Centro de Dia da terra. Os responsáveis da instituição falam numa população envelhecida, numa grande fatia dos moradores acima dos 60 anos. Já foi comprada mais uma parcela de um terreno adjacente para que – assim os concursos públicos do poder central o permitam – a instituição possa também funcionar como lar. Agora, contando com o apoio domiciliário, são beneficiados cerca de 110 idosos.

MACIEIRA E EUROMILHÕES

Um pouco mais adiante, o almoço serve-se no Tem Avondo. Para os forasteiros, explique-se que «tem avondo» é a mesma coisa que dizer «basta», «barriga cheia», «já estou satisfeito». O dono, Miguel, 35 anos, serve sumóis de ananás, bagaceira em copo a preceito e, ao mesmo tempo, regista os boletins do euromilhões das senhoras que chegam em bando. Nas mesas do lado do café (do outro lado é a zona de almoços), há quem fique. Ou melhor, há quem vá ficando, que estar ali é uma forma de passar o tempo como qualquer outra. Mónica Ali escreve sobre isso: «Os velhos ficavam no bar a acariciar os seus copos de Macieira e a cuspirem lembranças. Com os seus chapéus pretos de feltro e os seus coletes pretos, de lenço vermelho atado ao pescoço, pareciam a Stanton uns postais do passado, tão pitorescos como as ruas amolgadas, as casas caiadas, as portas e janelas alegremente rodeadas de azul e amarelo.»
À porta dos Armandos estão encostadas umas quantas bicicletas (em versões com mais ou menos ferrugem, o meio de transporte privilegiado em São Luís). A canção da Family Frost revela que a carrinha dos congelados anda por perto. Os Armandos são a venda. A loja, que mais parece um armazém, onde tudo se vende. Adubos, detergentes para a casa, artigos de higiene, fruta, bolachas, panelas, pás, vassouras, picaretas… É também ali que se podem comprar os bilhetes para a camioneta. Carlos, 43 anos, tomou conta do negócio, com o pai. Andou pelo mundo, tirou um curso de fotografia e, depois disso, decidiu voltar a São Luís. Motard, continua a fazer grandes viagens pela Europa fora. Conhece Mónica Ali, que costuma lá ir para comprar o que é necessário. «Ela não se anuncia muito», conta Carlos. É «discreta», «recatada» e «extremamente simpática», vai fazendo perguntas sobre a vida daqui: «Acho que a ideia é perceber o Alentejo e conhecer este ambiente». «Conversas casuais» tidas em inglês, ainda que, como sublinha Carlos, Mónica Ali «está cada vez falando melhor» português.
É um entra e sai dos Armandos. E chega alguém que entende a conversa. O rosto, inglês-tipo, não engana. Leu Alentejo Blue e não gostou. Não é propriamente amigo de Mónica Ali, antes «conhecido». Diz que não quer ser identificado, uma vez que, se lhe publicarmos o nome e a fotografia deixará de o ser. «Penso que se trata de um livro terrível, porque fala das pessoas que aqui vivem», comenta. «Very close to the boné», o que em português significa que a ficção está demasiado próxima do real. E acrescenta: «São pessoas reais. Quem não vive cá não sabe. Mas para quem, como eu, vive cá, é óbvio. Da parte dela não é muito inteligente fazer isto.»
A casa de Mónica Ali, uma casa pequena, com um grande sobreiral à frente, fica fora da aldeia. Costuma lá passar as férias grandes e sempre que o calendário escolar dos filhos o permite. Não é a única: há muitos estrangeiros na região, a maior parte deles espalhados pelos montes de Odemira, concelho onde a paisagem Alentejana não é feita de planícies a perder de vista.
A presidente Joaquina Bernardino comenta que se dão bem com os estrangeiros, mesmo que estes, por vezes, tenham dificuldade em respeitar os usos e os costumes alentejanos. A questão coloca-se sobretudo, explica Joaquina Bernardino, nos caminhos públicos que eles teimam em vedar e assim tornar «seus».

NÓS E OS OUTROS

Mesmo no centro da aldeia, o corpo médico da clínica Pontual (ironia por causa dos conhecidos atrasos portugueses?) integra profissionais estrangeiros – a massagista terapêutica Anne Raquin, o cirurgião Ronald Spaans e o enfermeiro Mateus Winnubst. A carrinha da freguesia leva a casa os filhos de ingleses e alemães que aqui decidiram viver a tempo inteiro. E, na escola, também se dão aulas de português para estrangeiros. Para os lados da Cova das Bruxas, há um alemão que faz trabalhos em pedra e uns holandeses que organizam passeios a cavalo. De há uns anos para cá, por iniciativa «deles», dos estrangeiros, conta a presidente da junta, realiza-se uma feira onde se vende o que sobra lá em casa, adaptação luisense da venda de garagem anglo-saxónica.
Também há quem diga que a época destes emigrantes por vontade própria já acabou. Elsa Candeias, funcionária da junta há 17 anos, afirma que, dantes compravam-se «coisas reles» por muito dinheiro. «Agora, já não têm os olhos tapados», afirma. Agora quem vem de fora «vem mais por necessidade». Ucranianos e brasileiros chegam às redondezas e quase sempre para executar trabalhos que mais ninguém quer fazer. O ar dos tempos também chegou a São Luís."

SARA BELO LUÍS

Reportagem in Visão, nº724 de 18 a 24 de Janeiro, 2007
Abrigo por Anamel às 01:17

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Domingo, 28 de Janeiro de 2007

'Tão triste e só como um anjo sem oratório'

'...certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onde para a praia na tua direcção vai o meu corpo, exclamou o Neruda, e era assim connosco, e é assim comigo, só que não sou capaz de to dizer.'António Lobo Antunes, 'Memória de Elefante'Vou-me enfiar como um vitelo no ventre agora frio da cama, embrulhar-me na angustia branca dos lençois e sentir a falta do teu corpo colado ao meu, das tuas pernas a tocarem as minhas nesses movimentos envolventes de amiba, dessa mansidão calma do teu sono leve de gaivota, vou sentir a falta do teu hálito no meu pescoço e se calhar vou começar a chorar baixinho, agarrado à almofada como um bébé a quem tiraram o brinquedo mais bonito, e vem ai, de certezinha, mais uma noite em que não vou ser capaz de adormecer sem enfiar no bucho dois 'Lexotan', para então dormir o sono de porcelana dos anjos de oratório, e amanhã acordo com o grunhir asmático do despertador que tu compraste, e vou demorar como sempre um tempo infinito aos apalpões para o encontrar e desligar, vou ter de me rebolar e arrastar pela cama na direcção da mesinha-de-cabeceira do teu lado, porque ainda não me habituei a muda-lo de sitio, vou ficar um montão de tempo a pensar por que porra é que eu estou sózinho nesta cama só desfeita de um lado e mais enorme do que nunca!, e vou olhar em volta e já não encontro mais a tua roupa dobrada nas costas do cadeirão de couro (que tinha pertencido não sei a que marquês e que nós compramos numa loja de antiguidades caras), vou achar a falta do teu acordar bruto e dos passos desgovernados que davas sempre pelo quarto à procura do roupão azul que te ficava a matar (e eu, que me lembre, nunca te disse que te ficava bem, caramba!), depois levanto-me e vou enfiar-me na casa de banho, olho-me no espelho e vejo como tenho os olhos parados e baços de tristeza como um touro amuado de encontro às tabuas, e pego na gilete e vou escanhoar-me muito bem, porque nunca tive coragem de mandar o modo de 'bem parecer' às urtigas (nunca fui capaz de aparecer no emprego com a barba por fazer e despenteado, porra, e ouvir com um sorriso as bocas aos subalternos!), vou procurar no armário a minha escova dos dentes e encontra-la sozinha a um canto onde me faz falta e tua, e um silêncio enorme , sem ti esvazia toda a casa e eu penso onde estarás a acordar a esta hora, se ainda estás em casa dos teus pais ou já te enroscaste com algum dos teus amiguinhos, desses que têm um ar natural de bem nascidos, desses que nem precisam de fazer muito esforço para terem um olhar brilhante e uma face polida, desses que tu trazias cá a casa, quando faziamos aquelas festas de que eu nunca percebi a razão, e com quem eu nunca fui muito à bola, também não sei porquê!, são pressentimentos, porque há duas coisas que um homem atento percebe sempre: o amor e o encornamento!, e a mim ninguém me tira agora dos cornos que algum gajo com mais cifrões do que eu te deu a volta, te endrominou com conversas ocas de dólares ou de ecus, e agora ando eu para aqui às voltas neste deserto branco da cama, à rasca para adormecer e com uma vontade do raio de te abraçar, com uma saudade enorme do cheiro da tua pele, do mar quente e azul dos teus olhos, e se tu não voltas um dia destes dou comigo num consultório a ler revistas parvas e à espera para ser atendidopelo médico das úlceras nervosas, preciso de te dizer quanto ainda gosto de ti, porra! que tudo o que passamos juntos não pode acabar assim tão parvamente com um «adeus» e um «eu depois volta para buscar o resto das coisas», e eu dou comigo a pensar: deixa-me pelo menos o teu perfume e a tua escova dos dentes no armário, se não um dia destes estoiro de solidão e não deve haver pior estoiro que esse!, de certeza, quando a angústia começa a levedar em bola no saco do estomago e se estende como uma lesma pelo esófago acima num ardor frio de ácido, é uma angustia pior do que a que eu senti quando me apresentaste os teus pais e fizeste uma pausa quase envergonhada antes de anunciares os meus apelidos:-Este é o Zé... Riço Direitinho!e eu, mais pequenino do que nunca diante das tuas terrinas da Companhia das Indias e dos quadros verdadeiros do Chagall, olhava, com os olhos suplicantes de um cãozinho abandonado, a tua mãe, que, mal reparou em mim e me cumprimentou, desapareceu engolida por uma das infinitas portas do corredor, se calhar foi rezar a todos santinhos da devoção que lhe levassem para bem longe este nome incógnito que a filha lhe tinha agora enfiado no meio dos talheres de prata, das porcelanas de Sèvres, e dos tapetes persas, e no dia do casamento deu-me então um beijo na bochecha e mostrou-me um sorriso, agora deve ter-te dado os parabéns e perguntado porque raio é que esta tão feliz ideia de me deixares assim à brocha não te tinha passado pela cabeça há mais tempo, e eu quero dizer-te o que se calhar nunca te disse durante os não sei quantos anos que estivemos juntos, durante os não sei quantos anos que estivemos no mesmo ventre de sono desta cama cheia de berloques, durante os não sei quantos anos que pastámos mutuamente a pele um do outro como duas ovelhas com cio, durante os não sei quantos séculos de filmes, de óperas, de teatros e de exposições, sempre a dois e de mãos dadas como um par de putos do porta adentro e eu estava sentado no sofá de veludo verde da sala, a ler como sempre um dos mesmos livros do Lobo Antunes ou do Almeida Faria, e tu atiraste com o saco das compras para o chão e berraste fora de ti e com as pálpebras a meia haste, que estavas fartinha de mim, dos meus sonhos de vir a ser um escritor famoso, do tempo que eu passava a escrever pela noite dentro sem olhar para ti (e isto era uma enorme mentira, porra!), sem te dar a menor atenção quando tu chegavas cansada e nos dias em que mais precisavas de mim, que estavas fartinha do meu sangue-frio de lagarto, da minha cara de pão sem sal, da minha moleza de engenheiro agrónomo eternamente empregado numa repartição de Direcção Regional do Ministério, e eu dizia-te sempre que um dia ainda escreveria um livro que ficaria toda a gente de boca aberta, todos os que como tu nunca quiseram acreditar em mim, no meu talento para escrever estórias, e tu não tiveste mais paciência para me ouvir e começaste a arrumar as coisas, mas só depois eu percebi que tinhas feito um teatro do caraças, que já devias andar a ruminar esta peça de fotonovela de 'Corin Tellado' há um ror de dias, percebi isso quando me assomei à janela e topei com um Maserati vermelho a esperar-te ao fundo da nossa rua, só nessa altura percebi como tinha feito papel de cabrão manso, mas agora se calhar já é tarde para me redimir, e vou meter mais umas pastilhas no bucho para ver se adormeço e me esqueço da saudade que me fazes, do teu perfume, que ainda não deixou este quarto, do cheiro do teu suor, que continua entranhado nas roupas da cama; mas sei que vou andar sem bússola na alma não sei quanto tempo mais, que isto só me vai passar aos poucos com xaropes e pílulas para o sono, e ainda umas quantas sessões de terapia ocupacional de grupo de psicanálise e mais uns quantos tratamentos iguais aos dos maluquinhos, e vais ver como eu te consigo esquecer para sempre!, e finalmente dormir um sono de cordeiro que não foi enjeitado."
José Riço Direitinho
Sempre tive uma amizade especial pelo autor deste texto, e considero esta uma forma de o dar a conhecer e de recordar os velhos tempos em que publicavamos as nossas palavras nas páginas já desaparecidas do 'DN Jovem'.
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Abrigo por Anamel às 12:59

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Secrets

Tenho feito amor de todas as maneiras
Docemente
Lentamente
Desesperadamente
À tua procura, sempre à tua procura
Até me dar conta que estás em mim
que é em mim que devo procurar-te
E tu apenas existes porque eu existo
E eu não estou só contigo
Mas é contigo que eu quero ficar só
Porque é a ti que eu Amo.
_________________________________________

"Amada, dava amor(...) É uma coisa que está ali, que sentes, que acontece em todo o teu ser e dentro de ti e deixa de haver distinção entre ti e a pessoa com quem fazes amor, não tens que chegar até ele, ajuda-lo, ensina-lo, não tens que mentir, espiar ou matar e, portanto, que mal há?(...)O lugar onde falava era a cama, com o seu belo corpo, e as sensações que me deu não eram nem fantasias nem gabarolices. E os outros, na praia, não têm lar - não por falta de jeito, por qualquer impulso que os leve a quebrar aquilo que há de mais precioso no mundo, mas porque são corajosos e acreditam noutras formas de amor, na justiça, nos homens seus semelhantes - e os dois, um dentro d outro, fazer amor é a unica maneira que temos de criar aqui um lugar que não seja apenas de passagem.A mão que se aperta é o unico amor que se faz carne. Aprender isso. Ler a mão que se aperta e aprender essa especie de amor......dei à luz, coisas que me fizeram; mas contigo faço eu propria as coisas, habito todo o meu corpo, estou toda onde me tocas, com a minha lingua na tua orelha, no interior das tuas áxilas, nas tuas nádegas macias."
Nadine Gordimer in 'Um capricho da natureza'
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Abrigo por Anamel às 12:56

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Vai onde te leva o coração

"Piedade, repara bem,não pena. Se sentires pena, descerei como os espiritos malignos e dar-te-ei imensas arrelias.Farei o mesmo se, em vez de humilde, fores modesta, se te embriagares com palavreados vazios em vez de estares calada. Explodirão lampadas, os pratos voarão das prateleiras, as cuecas acabarão em cima do lustre, desde madrugada até noite cerrada não te deixarei em paz um só instante.Não, não é verdade, não farei nada. Se, esteja onde estiver, arranjar maneira de te ver, só ficarei triste, como fico triste sempre que vejo uma vida desperdiçada, uma vida em que o caminho não conseguiu cumprir-se. Tem cuidado contigo.Sempre que, à medida que fores crescendo, tiveres vontade de converter as coisas erradas em coisas certas, lembra-te de que a primeira revolução a fazer é dentro de nós próprios, a primeira e a mais importante. Lutar por uma ideia sem se ter ideia de si próprio é uma das coisas mais perigosas que se pode fazer.Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te que uma árvore com muita ramagem e poucas raizes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai onde ele te levar."

Susanna Tamaro
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Abrigo por Anamel às 12:51

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